quarta-feira, 15 de julho de 2015

A carência de encontros e os avatares

Passamos rapidamente de amores líquidos para amores cliques. Num mar de efemeridades onde nos tocamos virtualmente (em imagem e pensamento) e passamos a nos conhecer e a espiar, voyerizar. Somos a sociedade mais voyer que já existiu na história das civilizações.

O facebook é o primeiro avatar que surgiu na história, digo, houveram outros antes dele. Mas este efetivou uma prática, um hábito e está moldando um novo comportamento social assim como o rádio e a tv.    

É diferente ser artista hoje e sê-lo 20 ou 30 anos atrás. Um exemplo rápido é a fotografia. Um rolo de filme era caro e você tinha que saber medir as condições de luz e regular sua câmera para captar a imagem tal qual seu olhar. Isso não é instintivo, você precisa estudar pra saber isso, mais do que isso, precisa praticar. Hoje uma câmera pode tirar milhares de fotos e ela regula tudo sozinha se você não souber faze-lo manualmente.



Os amores passaram de líquidos para cliques. E não precisamos de outros aplicativos como tinder e coisa tal. O facebook cumpri essa função com muito mais eficácia. Todos sabemos disso. A despeito dos encontros estamos num momento em que existem vários movimentos ligados ao encontro. Ocupação de espaços públicos, minhocão, parque augusta, av paulista aberta aos domingos. A principio há sucesso de mobilização em várias dessas frentes.

Todo espetáculo, tudo que fazemos em termos de produção cultural, artística se dá para promover o encontro. A arte é meio. 

São Paulo tem de tudo, mas nós usamos muito pouco desse tudo. Estamos felizes, estamos vivendo a vida como pensamos um dia talvez? Não precisamos ser moralistas, tudo evolui, somos o último remanescente nascido antes da internet em todos os lugares. bem vindo ao grande google irmão.

E o que estamos fazendo com isso? Criando distâncias e cada vez mais interfaces. Eu acho que ninguém mais se conhece de verdade. Auto conhecimento então tá fora de moda total. Claro que foi bom quando a psicanálise era a polêmica do mundo. Não precisaremos decorar livros, tudo será guardado e indevidamente arquivado. 


Estamos num momento completamente singular da história e ao mesmo tempo de maior ilusão da humanidade, que fica cega em suas telas de celulares e computadores olhando pra um espaço bidimensional e imaginando vidas inteiras a partir de momentos instantâneos, polaróidicos.

Todo mundo é muito feliz e ninguém tá triste. Ninguém nunca broxa, Nem homem nem mulher. Não falamos as coisas quando devemos falar, seguimos protocolos que não sabemos mais quem e porque os inventou. Estamos dormindo em um ônibus que vai e vem eternamente.  

Estamos todos juntos, todos perdidamente juntos e não nos encontramos.


Como pode uma cidade com tantos espaços e tão propensa a vanguardas e rupturas de paradigmas dificultar tanto o acesso ao encontro? 

O que tá acontecendo com a gente? Além do medo de todas as dsts possíveis, de tudo que colocaram em nossas cabeças, temos medo da gente mesmo. Temos cada vez mais medo de olhar nos olhos. Isso tudo porque nos ensinaram esse amor-dor.

Não existe separação no coletivo. Só existe separação na individualidade. É claro que a gente encontra algumas ligações mais intensas do que outras, mas ficar nessa do amor romântico monogâmico, com traiçõezinhas e flerts esporádicos que não se pode revelar e que todos nós estamos mais que cansados de saber e esperando para lidar com isso nas relações.

Enquanto amar for um segredo, será dor, enquanto amar for essa lama de energia sôfrega, de repressão, amor da posse, da possessão. Será sempre esse conflito, será sempre um se... 

e se?
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Documentarista e artista visual. Compartilha interesses pela produção artística paulistana. Atualmente produz seu novo documentário INÉDITOS E DISPERSOS
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