segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Entrevista: Peu Pereira Revista Palíndromo Processos Artísticos Contempoâneos 2011 / no5 247


Coletivo Arte na Periferia1 

Célia: Vamos começar falando um pouco sobre a arte contemporânea no caminho do trabalho coletivo. Hoje há diversos grupos que se or- ganizam. O quê levou vocês a se organizarem em grupo e quem são as pessoas desse coletivo? 

Peu: Nós somos três pessoas, eu, o David Vidad e a Daniela Embón. A gente resolveu se juntar para fomentar essa reflexão sobre a arte da periferia, porque cada um de nós tinha diferentes desenvolturas para determinados conhecimen- tos. No momento em questão, o David sabia bastante a respeito da técnica do audiovisual, ele tem uma facilidade grande para pesquisar, aprender e tal. Eu vinha com a proposição de refletir sobre essa produção artística da periferia. E a Dani estava na época terminando a sua graduação em Ciências Sociais, com uma monografia sobre a produção artística na periferia. Então tudo se linkou, e a gente percebeu que juntos conseguiríamos ter mais projeção, mais força. Mas também porque a gente começou a perceber que haviam muitos grupos pro- duzindo cultura artística na periferia, e que a gente não podia pesquisar sozinho, que fazendo isso juntos teríamos um envolvimento mais forte com os outros grupos. E esses grupos todos juntos formam uma coisa que a gente ainda não sabe o que é, talvez daqui alguns anos isso tenha uma forma mais definida.



Célia: Quando você fala em periferia, qual é o recorte de periferia que você faz? Isso é um conceito muito amplo, não é? 

Peu: Simbolicamente quando eu falo em periferia, estou falando da maio- ria da população que está desassistida, desacompanhada do Estado, que deveria ter um cuidado com essa parte da população. De um modo geral, quando a gente fala em periferia, que ao meu ver está virando um termo difícil como comunidade, que tem um significado prático tão incrível e bo- nito. Tem muita gente se refere à comunidade falando do bairro do Capão Redondo, Campo Limpo, que são bairros em que não existe a condição de comunidade verdadeira, de organização, de trabalho comunitário, de um pensamento comum, mas que em algumas partes desses bairros, isso vem acontecendo. Então periferia tem um pouco isso. Por outro lado, acho que está servindo para identificar bastante uma contradição que é esse papo de maiorias e minorias. Eu faço parte das minorias? Isso é uma mentira, porque as minorias só existem no campo das oligarquias que governam o mundo. O resto é tudo maioria, maioria dos mais pobres, dos analfabetos, dos mais desprovidos de educação, e é justamente isso que tá e nós somos a maioria, e aí o que vamos fazer com isso? Então, no meu ver, quando a gente fala periferia, estamos falando de centro e margem, de centro e periferia mesmo. Quando falo de periferia, estou falando em referência a um centro dentro da cidade, que simbolicamente nem é o centro geográ- fico de São Paulo, porque o centro da cidade é deplorável, deplorável no sentido do abandono, tanto que no centro da cidade a gente tem, parece que quatrocentas mil moradias ociosas. Tem um monte de moradia sendo ocupada e um monte de despejo acontecendo, então a periferia também está no centro. Geograficamente a gente fala dos lugares que o Estado não está vendo, não chega, não assisti. E eu percebo, que por conta disso, hoje em dia existe muito incômodo de se falar de classe, que é o que a gente deveria discutir e fomentar a discussão o tempo inteiro. Mas ainda é um tanto confuso... Vou dar um exemplo: tem um sujeito grafiteiro, o Mauro Neri, primeiro, que ele é uma autoridade estética do Grajaú, que eu já acho maravilhoso e fantástico, segundo, quando ele vai falar sobre o que eles estão produzindo – arte de rua no Grajaú –, ele precisa usar um mapa. Isso porque ele precisa abordar essa questão da represa, margeando as zonas mais distante do centro, precisa falar da condição da moradia em áreas de mananciais, que não se poderia morar ali. No entanto, nas beiradas da represa Guarapiranga, você também tem mansões enormes, com jet ski, com píer, com tudo isso. Então, quer dizer, o rico pode morar na beira da represa e o pobre não...

Célia: Quer dizer, essas pessoas estão na periferia do sistema 

Peu: Isso, do sistema, e não da topografia. Se você for pensar em percentu- al, a grande maioria está desligada do oficial, do que o governo é capaz de chegar, capaz é errado, porque capaz ele é, quer dizer, de onde os interesses alcançam. Antes, o centro financeiro da cidade era na região da Avenida Paulista, hoje não é mais, hoje é na região da Vila Olímpia. Na Vila Olímpia já foram tiradas várias favelas por conta dessa expansão do progresso. E esse progresso é uma coisa admirável, no sentindo da engenhosidade, da maldade sem remorsos, porque se você tem progresso, tem alguma coisa que está acabando, se está desmanchando... 

Célia: Que se coloca no regresso, no recesso 

Peu: No regresso e no recesso, exatamente. Então essa coisa toda é ma- luca, acho que é mais a questão do conceito mesmo, e ter cuidado com os conceitos também.
Célia: Peu, quando vocês produziram o documentário Panorama: arte na periferia, vocês fizeram uma especificação topológica da periferia da cidade de São Paulo. Qual foi o recorte e porque dessa escolha? 

Peu: Eu sempre morei aqui na região de Santo Amaro, no Parque Santo Antônio, no Jardim São Luís e em alguns outros bairros como Jardim Bra- sília, Monte Azul, Campo Limpo. Hoje, eu estou morando aqui na divisa do Jardim Lídia com o Capão Redondo. Um morro é uma coisa, outro morro é outra. O recorte que a gente faz é esse, é pesquisar o que vem acontecendo nessa região da periferia da zona sul. Inicialmente, começamos pensando no chamado triângulo da morte – foi assim que ficou conhecida pela mídia essa região nos anos 1990, que compreende os bairros Capão Redondo, Jardim Ângela e Jardim São Luís. Essa era a época que os Racionais Mc’s toca- vam direto no rádio, Fim de semana no Parque Santo Antônio. Hoje em dia estamos com uma proposta mais expansiva, estamos querendo encontrar essas características da zona sul em outros cantos da cidade. O nosso último trabalho, o Curta Saraus traz bem essa proposta. Ele aborda o movimento dos saraus que vem acontecendo agora na capital como um todo. Só na pe- riferia tem uns oitenta saraus que vem acontecendo freqüentemente, e esse curta-metragem procurou discutir a ideia que os realizadores têm da pos- sibilidade que esse saraus têm de transformação social. Estamos também pensando nos coletivos que vêm realizando ações e intervenções urbanas. 
Célia: Como foi conhecer esses diversos artistas? O quê vocês mais aportaram deles? 

Peu: O que mais me marcou foi perceber que todos eles, ou grande parte deles, são trabalhadores comuns, com suas rotinas de trabalho diárias em diversos segmentos. Tem o faxineiro, que é o caso do Sr. Estevão, até outras vertentes como educadores. Tem essa transversalidade nas profissões.

Célia: E o que a arte traz para essas pessoas? 

Peu: Acho que eles conseguem sair um pouco do senso comum de per- cepção. Acho que elas conseguem transcender os valores que são ditados diariamente por meio da publicidade, da imprensa, da mídia, e que é massa- crante para todos nós. A pessoa que consegue sair um pouco desse univer- so, para fazer um mosaico na parede da sua casa, para fazer um desenho, para escrever um verso, ele consegue se ver de fora, consegue sair do lugar comum onde ela está, e consegue se enxergar como ator desse lugar co- mum e como ator massacrado pela rotina diária do trabalho. É aí que ele consegue se expressar criticamente. Expressar o que ele acha disso tudo, da falta de sentido que tem de trabalhar a maior parte da vida. A gente nasce, morre e trabalha. É um trabalho repetitivo e que muitas vezes não se tem prazer em fazer e também não se tem retorno, não tem reconhecimento. E a arte ajuda a gente a sair do mediano que a gente vive, faz a gente enxergar um pouco mais a essência, trazer um pouco mais de sentido para essa vida, que é, de um modo geral, muito sem sentido. 
Célia: Sobre as pessoas que vocês entrevistaram, qual retorno que elas tiveram? Como foi a recepção do vídeo? 

Peu: O retorno que temos vem muito dos personagens do filme. O Binho, por exemplo, quando lançou o livro Donde Miras: dois poetas e um caminho, em parecia com o Serginho Poeta, na apresentação ele agradece: “Obrigado ao Peu que fez o Panorama e conseguiu dimensionar a arte que está acontecendo na periferia de São Paulo”. O Gunnar Vargas, quando fez a Revista Cultura Periférica, na Semana de Arte de Moderna da Periferia, em 2007, ele falou que foi inspirada no nosso filme, pois a revista trazia toda essa di- versidade que foi documentada no vídeo. Tem o Euller também, que sempre falou que o filme foi muito importante para nossa comunidade artística de um modo geral, o Sérgio Vaz, o Gil e por aí vai... A recepção, a crítica do filme, foi muito boa também. A gente não podia ter sido mais feliz com a recepção que teve, e mais ainda, a crítica é espelho do filme, o que ele con- seguiu dimensionar e trazer em questão de discussão. Ele não só conseguiu dar uma mapeada na produção artística, como ele conseguiu refletir sobre a produção artística, trazer a tona coisas profundas como o porquê da pro- dução. E aí quando eu penso numa estética, eu penso que a primeira coisa de tudo é que tanto nas artes plásticas, quanto na música, na literatura, no audiovisual, no teatro, a gente está falando de uma mesma coisa: luta de classe, distribuição de renda, melhoria na educação, na moradia, pedido de voz, pedido não, ocupação pela voz, ocupação pelo som. Acho que todas essas diversas linguagens têm um ponto em comum. A gente precisa de qualidade de vida, a gente quer qualidade de vida. Viemos aqui para poder viver, não para sobreviver.


Elisa: Quando a gente assiste o Panorama: arte na periferia, a pri- meira impressão é a ideia de mapeamento e apresentação, de mos- trar o que está sendo produzido aqui na zona sul. Mas como você acabou de observar, a questão da problematização da arte, da re- definição do conceito de arte, ‘o que é a arte’, ‘você se considera um artista’, é um momento importante de reflexão, de um despertar de um pensamento crítico. Nesse sentido, eu gostaria que você falasse um pouco mais sobre isso, sobre essa redefinição da função social da arte pelos próprios sujeitos da ação, invertendo, a meu ver, a ideia comum de que essas discussões são próprias dos teóricos e acadêmicos da arte. 

Peu: No filme surgiu uma definição que eu acho uma das melhores, que é do Jair Guilherme, que ele diz o seguinte: “A arte é meio, a gente faz arte para poder se comunicar com o outro”. A arte sem o outro é inócua, ela não tem corpo, ela não tem motivo de existir. Essa coisa de se perguntar “mas você é artista ou não?” veio justamente disso. O que é visto hoje como artista? Eu li que o Luan Santana é considerado um artista, o Restart é uma banda de artistas, o ator da novela global, ele é um artista. E aí que tipo de artista você tem na sociedade e o que ele reflete, enquanto modelo, en- quanto exemplo? E isso é complicado quando você vai discutir esse conceito por meio do artista popular, porque o artista popular está na rua. E quando ele vai na academia falar sobre a sua experiência, ele vai lá, muitas vezes, mais do que falar, ele vai apresentar, mas ele não fica lá para teorizar. O pensamento dele muitas vezes é recortado, dilacerado e ruminado para se transformar num teorema. Ele não fica lá para dizer os reais motivos dele. Ultimamente, eu tenho pensado muito na fome, escrevi um texto no blog chamado “Estética e fome, e não estética da fome”. Quer dizer, o cara de barriga vazia não consegue produzir. É aí que eu falo que existe um ponto em comum. Quando a gente vai pensar na conceituação do artista de rua, que você pode falar popular, da rua, da vida louca, não importa, é o cara que produz de acordo com o que ele ouve, e o que ele ouve é isso, é o cara que é hostilizado pela polícia porque é pobre e negro. Então, antes de qualquer coisa, é preciso dizer que essas pessoas são povo, sofredoras e trabalhadoras. Eu, por exemplo, sou filho de mãe paraibana e de pai cearense. Sou filho de uma geração que veio de migrantes do nordeste pra cá. Então, tem tudo isso, a gente precisa antes de se considerar artista, é preciso se considerar trabalhador digno, negro digno, morador de periferia digno. E mais do que tudo isso: propositor, pensante, seres que precisam se autoformar e se autogestionar para poder questionar esse sistema todo. E esse nó nunca será desatado, porque a arte ainda vai ser conceituada e reconceituada muitas vezes. Mas hoje a gente consegue ter a dimensão de que vivemos num momento histórico, que pela primeira vez na história da humanidade, é possível pesquisar um acervo de mais de cinco séculos, por exemplo. A gente consegue ouvir músicas que antes, no tempo de Beethoven, muita gente não ouvia, e não é porque agora ele é um ícone, mas sim porque agora é possível. Você vem e pesquisa na internet. Você tem a referência de qualquer tempo de arte. E a gente já percebeu o quanto isso mudou e, principalmente, como a elite vem se apropriando do popular. A apropriação do samba. A gente sabe que o samba é nascido na favela, o samba sempre falou da fome, sempre falou da favela, do morro e do bairro e das relações, sejam amorosas ou sociais pra daí depois ele falar de outras coisas também. Mas ele nasceu na favela e vai se transformando em outras coisas, assim como o blues, que nasce nos campos, na vivência do trabalhador escravo e depois vira o rock’n’roll etc. Daí, a elite passa a gostar. Hoje é uma coisa cult, clássica e coisa e tal. A gente precisa ter consciência que as coisas sempre vêm da arte emergencial. O grafite e o hip-hop são exemplos de movimen- tos que a gente sente legitimidade, que nasceram disso...

Célia: Nasce muito mais da precariedade do que da fartura... 

Peu: E a precariedade consegue unir. Eu tive uma experiência uma vez, fantástica. Conheci uma mulher, num assentamento, e ela falou assim: “Vou te dizer que agora esse assentamento é muito grande, as casas fi- cam muito longe umas das outras. Quando a gente estava acampado, era tudo mais quentinho, mais rápido. Se não tinha feijão, buscava ali, tinha a cozinha coletiva e os moradores daqui eram muito mais unidos”. Olha que riqueza tem esse depoimento para a gente pensar em geografia, em organização social, em relações, porque a gente está sempre discutindo as relações, o samba sempre discutiu as relações. 
Célia: E agora, Peu, o grupo já fez uma análise disso tudo, uma ava- liação? Quais são os projetos futuros? 

Peu: Isso é uma coisa importante. O trabalho em grupo tem sempre suas complicações. Essa coisa de num determinado momento cada membro do grupo tomar uma definição própria do que quer pesquisar e coisa e tal. Coletivamente, a gente tem pensado como é que a gente vai continuar atuando, onde queremos nos estabelecer. Tudo isso diante dessa problemática do morador de periferia, de sermos ‘nós’, e tudo isso relacionado diretamente em como eu vivo cotidianamente, o aluguel da casa, a escola do meu filho, isso e aquilo. Então tem o trabalho que importa para a minha vida, que é o trabalho do Arte na Periferia, e o meu trabalho individual que, às vezes, se desgruda um pouco do trabalho do Arte na Periferia. Como grupo, a gente tem pensado muito como é que a gente vai agir daqui pra frente, se a gente forma uma pessoa jurídica, se a gente vira uma cooperativa, se a gente agrega um grupo maior de pessoas. Existe um círculo de pessoas que fica perpassando e circu- lando o Arte na Periferia. O coletivo é um ser etéreo, uma coisa meio concei- tual mesmo, é um selo que a gente usa, e por esse selo subentende-se tudo o que eu falei: se tem esse selo está discutindo ou denunciando alguma questão da parcela com menos voz da população. Então estamos nesse passo, e esse passo é um processo de longo prazo, não é uma coisa que a gente para, pen- sa e define. Agora estamos em parceria com o Ponto de Cultura Morarte, no desenvolvimento de alguns programas do Sarau do Binho, vamos editar um documentário que a gente captou no ano passado sobre o MDM, Movimento de Direito a Moradia, nos seus quinze anos de existência. É sempre interessante a gente voltar às histórias de vinte, vinte e cinco anos atrás, que é o tempo dos anos 90, do triângulo da morte e dos Racionais Mc’s com a revolução da palavra. Interessante pra ver o quanto os movimentos civis ajudaram a des- construir essa ideia de violência. Não que a periferia não seja violenta, mas não é só isso. E a gente tem trabalhado nisso. O coletivo está muito ligado às discussões de moradia, da propriedade da terra, da cultura livre.


Célia: Como é a interação do coletivo com a população local a partir dos vídeos? Como a população não-artística recebe isso? 

Peu: A gente tem uma experiência interessante. O NCA, Núcleo de Comu- nicação Alternativa, que é um grupo parceiro, eles têm a Videoteca Popu- lar, que agora está aqui no Sacolão das Artes. No ano do lançamento do filme Panorama, a gente deu duas cópias pra eles, e durante mais de três meses era o filme mais emprestado da videoteca, emprestado para mo- radores. Talvez esse seja o maior retorno. E o Daniel, Fernando e Juliana [integrantes do NCA] falando: “Olha, as pessoas gostam muito do filme, e às vezes é o filho e, outras, é a mãe”. Então tem esse feedback. Tem também de todas às vezes que a gente foi exibir o filme, dentro e fora da periferia. Esse mês eu estava na Universidade de São Carlos apresentando o filme para uma platéia de estudantes do Curso de Serviço Social. A gente discutiu, conversamos muito, falei sobre essa questão da pesquisa estética e fome, e teve um retorno muito grande, principalmente do pessoal mais jovem que é ligado aos movimentos de periferia. Eles diziam: “Meu, muito bom, eu preciso do filme porque eu preciso mostrar lá na quebrada, preciso mostrar no meu bairro”. É assim, sempre que a gente passa o filme bate muito, as pessoas se identificam muito. 

Célia: Você chegou a sentir que a partir do filme outros moradores dessa região se interessaram em também produzir arte? Deu para perceber isso ou não? 

Peu: Principalmente as pessoas mais próximas da gente, mesmo os que não tinham vínculo com a produção. Quem é daqui, de um jeito ou de outro, começou a produzir. Se foi no Centro Cultural, se foi no Sarau do Binho, co- nheceu um ou outro, tem uma facilidade de inserção muito grande. E acho que o filme motivou muita coisa, com certeza mais coisas do que eu consigo saber ou imaginar, tenho até uma certa ressalva de falar isso. Mas acho que o filme, para a classe artística, ele gerou motivação pra muita coisa. Eu não sei dimensionar o quanto, mas tenho um feeling muito forte que tanto na classe artística, quanto fora dela, o filme contribuiu com essa coisa do movimento. Hoje, eu penso muito na estética do filme, na sua narrativa. O filme termina completamente pra cima, com aquela música do Samba da Vela, sentimental pra caramba, falando: “Vida, essa vida tão sofrida...”, falando disso, do sofrimento que a gente supera. Então, ele termina muito pra frente, um tanto até emotivo. E a gente pensa nisso, como o nosso tra- balho contribuiu um pouco pra dar uma injeção de ânimo, pra te dar uma vontade de “Putz, a gente pode fazer mais, né?”. E acho que as pessoas que me conheciam, direta ou indiretamente, sabem um pouco da nossa trajetória, tiveram total certeza de que é possível, porque somos daqui, pessoas comuns, e estamos conseguindo. O Panorama agora está sendo exibido na TV Cultura, que comprou os direitos de exibição por dois anos. Poxa, o filme chegou na televisão, aí o Gil, camarada nosso, chegou em mim e falou assim: “Meu, ontem quando eu estava vendo o filme na TV Cultura, e eu falei, meu, o Peu conseguiu colocar todos os vagabundos da periferia na TV (risos)”. 

1 Entrevista realizada em São Paulo, maio de 2011. A professor Célia Antonacci Ramos e a acadêmica Elisa Rodrigues Dassoler fazem parte do Grupo de Pesquisa “Poéticas do Urbano”, PPGAV/UDESC. Para conhecer o trabalho do Arte na Periferia acesse: www.artenaperiferia.blogspot.com. Sobre a produção e organização do referido coletivo no contexto de territorialização da arte na periferia sul da cidade de São Paulo, ver a dissertação de mestrado de Elisa Dassoler (2011) - Coletivo Arte na Periferia: por uma outra dimensão territorial das artes visuais.
palíndromo processos artísticos Contempoâneos 2011 / no5 225


FIlmografia
Curta Saraus (2010)
Documentário – 15 minutos – cor.
Direção: David Alves da Silva (David Vidad). Produção: Alisson da Paz, Daniela Embón, Gil Marçal, Penha Silva. Fotografia: Peu Pereira e João Claudio Sena. Fotografia Still: Léo Guma. Som: Gunnar Vargas. Montagem: David Alves da Silva. Designer Gráfica: Silvana Martins. Produção: Arte na Periferia. Realização: Secretaria do Audiovisual – Ministério da Cultura – MINC. Apoio: Associação Brasileira de Canais Comunitários – ABCCCOM. Sociedade Amigos da Cinemateca – SAC. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=7FyCf1CrFcI&feature=pla yer_embedded

Panorama: arte na periferia (2007)
Documentário – 50 minutos – cor.
Direção: Peu Pereira. Edição: David Vidad. Produção: Daniela Embón e Anabela Gonçalves. Produção: Arte na Periferia. Realização: Programa VAI. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=W7iWx5ZjXww


















ENTREVISTA: PEU PEREIRA

palíndromo processos artísticos Contempoâneos 2011 / no5 247
Minha foto
Documentarista e artista visual. Compartilha interesses pela produção artística paulistana. Atualmente produz seu novo documentário INÉDITOS E DISPERSOS
© okinografo 2012 | Blogger Template by Enny Law - Ngetik Dot Com - Nulis