quarta-feira, 30 de setembro de 2015

A arte do capital e o capital da arte


Faz algum tempo que venho refletindo sobre nossa produção artística. Primeiro só olhava pra periferia da zona sul de São Paulo, aos poucos meu trabalho como documentarista e pensador dessa produção foi se expandido para outras regiões, sempre as margens, sempre na imensa franja que permeia a cidade. E agora venho pensando na produção artística paulistana como um todo. E minha pergunta é: porque não há um movimento de arte na cidade? Com manifesto e reclamador de direitos e utopias?
Alguns dirão que sim, que há um movimento de arte sobretudo nas periferias e eu mesmo já fui dessa opinião. Mas ao estudar a história dos movimentos artísticos me deparei com inúmeros manifestos. O Pau Brasil e o Manifesto Antropófago do Oswald de Andrade, o Ultraismo de Borges, o Tropicalismo, o Futurismo, o Dadaísmo que lutava contra a falta de sentido da primeira guerra mundial, o Punk com sua moda de vestimenta e sua vocação anarquista contra todos os governos. Poderíamos falar por horas de movimentos e manifestos. 

E nós também temos um manifesto maravilhoso que começa, "a periferia nos uni pela dor, pela cor e pelo amor"... do poeta e escritor Sérgio Vaz, na ocasião em que produzíamos coletivamente a Semana de Arte Moderna da Periferia em outubro de 2007. Acontecimento histórico que nos colocava a frente de nosso tempo da mesma maneira que pedia apontamentos para onde seguir. Para onde ir a partir dali.  
A arte é o lugar do livre pensamento, da expressão espontânea, da utopia. Não queremos que arte tenha uma missão, arte é devir e não dever. Contudo vivemos num tempo sombrio onde a luta de classes é escancarada. Onde temos um governo de uma elite que não subsidia nossas escolas para que possamos ter acesso aos conhecimentos elementares da vida: física, química, biologia, matemática. Nossos jovens não sabem o quão lindo pode ser estudar química, porque são esses conhecimentos que realmente transformam o mundo e as pessoas em volta dele.
Nunca vi um premio Nobel de poesia ou de artes plásticas ou de gramática ou de história ou geografia. Esses não são conhecimentos inferiores, mas queremos ser bons físicos e engenheiros e biólogos procurando soluções para lutar contra a indústria do pesticida. Contra a indústria do escravismo humano. Vivemos numa sociedade onde os bancos lucram com a fome e ao mesmo tempo financiam nossos projetos de arte. E de alguma forma, nos calamos, estamos dispersos.
Em algum momento dos anos noventa começa a surgir essa produção que vemos acontecer hoje. Uma produção completamente negligenciada e rechaçada pelo circuito de arte estabelecido na cidade. 20 anos depois estamos no centro desse lugar que antes não era nosso. Claro que há orgulho na conquista, mas a que preço? Tenho um projeto financiado pelo Rumos Itaú Cultural, o Itaú bateu recorde de lucro neste ano (2015) onde a crise financeira afeta a maior parte dos trabalhadores, os filhos desses comem açúcar e sofrerão as consequências disso.
Hoje fazemos parte do circuito Sesc de Artes, uma empresa declaradamente capitalista que vive do comércio e tem muitas atrações gratuitas e outras tantas pagas, que tem um acumulo de capital milionário e que visa o lucro. Houve um tempo em que reclamávamos que o SESC não contratava a gente, agora estamos dentro dele até o pescoço e gostamos disso, nos dá status. É muito bom pro currículo do artista ter um projeto aprovado no sesc ou no rumos itaú cultural ou em qualquer umas dessas instituições pró capitalista.
O que antes parecia emergir como um movimento contestador, vanguardista e comprometido com a realidade social local de onde surgira, agora está cooptado pela lógica capitalista que outrora era rechaçada. Fizemos muita coisa: livros, filmes, peças de teatro, intervenções, fomos ao pinheirinho fazer shows musicais depois que a polícia do governo destruiu e assassinou pessoas nesse lugar. É evidente que penso em revolução, afinal sou um artista e quero ser compreensível para as massas, não quero virar uma nuvem de calças.
Justamente por isso reflito aqui minhas angustias, afim de compartilhar essa aflição de ver que toda arte se torna capitalista e acaba reproduzindo a lógica sistêmica da meritocracia, porque no fim das contas, se você está sendo subsidiado por uma instituição importante é porque você é bom ou trabalhou duro para conquistar isso. Mas isso tudo aconteceu porque nossa arte surgiu com uma força revigorante frente aos circuitos de arte existente como Vila Madalena e outros campos da cidade.
E se hoje nossa arte chegou a diálogos sólidos com a secretaria de cultura, com fundações, editoras e instituições consagradas é porque surgiu com a potencia revigorante da arte manifesta, da arte urgente, da arte nascida no seio da casa do trabalhador e é preciso pensar pra onde vamos e o que queremos, mesmo que não saibamos agora, pensar sobre isso nos levará a no mínimo alguns apontamentos.
Se por um lado a política é essencial para realizar nossos ideais a arte é fundamental para apontar as utopias.
Não fosse assim seguiríamos incrustrados na ditadura, mesmo assim vivemos sobre a constante eminencia dela.
Daí nosso labor e sua importância. Ainda que de formiguinha, ainda que a boca pequena, sua necessidade prevalece a todos os contra tempos, a todos pormenores que haverem. Sua natureza essencialmente contestadora e carregada de futuro nos faz avançar em humanidade assim como a ciência avança em tecnologia. Portanto manter e fomentar os espaços do diálogo, da reflexão, do livre pensamento, para fomentar o sonho, a expressão, o desejo de liberdade é fundamental para consolidar a humanidade dentro de nós.

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Documentarista e artista visual. Compartilha interesses pela produção artística paulistana. Atualmente produz seu novo documentário INÉDITOS E DISPERSOS
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